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Histórias -> Nevoeiro
Autor da História: João Oliveira(proliv) | Data: 2008-12-12 22:56:00 Ver o perfil do utilizadorver perfil do autor
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Mensagem Pessoal: A imaginação não tem limites porque ainda ninguém o atingiu...
País e Localidade: Portugal, Vila Praia de Âncora
Sexo: Masculino
Membro desde: 2008-12-21 00:00:00
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Apresentação desta história:
História que se passa na Vila de Melgaço, onde se estão a passar coisas muito estranhas e sobrenaturais.
Leiam, esta já vai bem grande mas acho que vale a pena.
Está aberta para quem quiser participar.
Pontuação:

Autor: João Oliveira(proliv) Ver o perfil do utilizadorver perfil do autor Data: 2008-12-12 22:57:00
Nevoeiro Parte I

Vou tomar café a Melgaço, pensei para mim enquanto conduzia o meu carro. Nunca lá tinha estado e a tarde de Domingo de Inverno convidava-me.


A localidade era pequena mas muito ordenada em redor de um antigo castelo com uma imponente torre no seu interior. O café teve de esperar, a muralha era demasiado apelativa e ainda mais fascinado fiquei ao descobrir que escondia no seu interior um peculiar casario em pedra, de fora não parecia ter dimensão para tantas casas. As ruas eram muito estreitas, em ladrilho, outras em lage. A altura das muralhas, mal permitia a entrada do sol e o ambiente era sombrio.


 


Ao entrar senti que estava a entrar noutra dimensão: não haviam pessoas na rua, havia música de natal, em vez de proporcionar um espírito festivo parecia inquietar mas ao mesmo tempo convidava a passear pelas vielas que despertavam a minha curiosidade. Sentia-me num local temporariamente abandonado.


Numa das estreitas ruas, dezenas de gatos devoravam restos que alguém lhes deixou, quando perceberam que cruzava na perpendicular à rua onde se encontravam, especaram-se e fitaram-me como que me ameaçando, seguiram-me fixamente até não os conseguir ver e imagino que tenham baixado os olhares para continuar o seu festim felino. Quando dirijo o meu olhar em frente, ainda estranhando a atitude dos gatos deparo-me com uma idosa que estava especada à minha frente, do seu rosto só consigo recordar os contornos escuros dos olhos olhando-me fixamente e um xaile preto cobrindo-lhe a cabeça que ligeiramente puxado à frente lhe ocultava o rosto. Recuo dois passos impulsionado pela estranha aparição e desequilibrando-me volto a poder olhar para a rua dos gatos, que ali já não estavam. Caio de costas ainda impulsionado pelo recuo e pelo facto de ao olhar novamente para a minha frente a senhora ter desaparecido.


 









O momento que vivera teria-se passado em seis segundos, não mais, mas dixou-me atordoado durante um longo minuto. Depois de olhar várias vezes para a rua com declive acentuado e sinuoso onde avistara os gatos, que me pareceram todos pretos ou de cor escura luzidia, questionei-me sobre a possibilidade de se tratar de uma alucinação proporcionada pelo ambiente sombrio do local ou pelo cansaço da minha viagem. E então a imagem da idosa que não me saía da cabeça? Olhei novamente em todas as direcções, não se via vivalma e reparei que a música natalícia também já não se ouvia, mas isso teria uma explicação bem mais simples, ao contrário da minha "visão" inesperada. Apesar de insólito, decidi ignorar, até porque este episódio, ao contrário do que seria de esperar, se dissipou rápidamente, assim que avistei um largo amplo em que o sol aparecia. A placa indicava "largo do adro" e um pequeno escadório dava acesso a um antiga capela. Apeteceu-me visitá-la porque me pareceu, pela proximidade com as muralhas do castelo e pelas frestas em vez de janelas, ser da época medieval. Ao entrar, fui presenteado com um ambiente de luz natural quase inexistente e um forte cheiro a mofo. A única luz que brilhava era a de algumas velas e uma luz vermelha e trémula no sacrário. Senti um arrepio e lembrei-me que já não frequentava uma igreja há mais de um ano. Dei alguns passos em direcção ao Altar Mor e senti o chão ranger, era de soalho! Segui com passos lentos mas firmes em direcção ao altar, era estimulante o ruído do chão penetrando aquele profundo silêncio. Parei por instantes, benzi-me e parei para meditar sobre algo relacionado com a religião. Inevitavelmente, o episódio assustador de há minutos assolou-me de novo e senti outro arrepio na espinha. No momento em que ainda tentava decifrar a origem de tal momento arrepiante sinto o chão ranger atrás de mim.

 


Fico imóvel por instantes e sinto uma voz masculina, rouca e de baixo timbre dizer algo que não entendi, ficara assustado por ter ouvido os passos ainda na porta da capela e ter sentido quase no mesmo instante uma voz imediatamente atrás de mim. Ao passar por mim reparei que era bem mais baixo que eu, de idade avançada e tinha uma acentuada corcunda nas costas. Roçou o seu ombro em mim com alguma firmeza e sem tentar desviar-se, como que ignorando ou desconhecendo a minha presença. Seguiu na direcção do altar cambaleando e murmurando palavras que continuava sem compreender, levava um saco de papel na sua mão direita. Subiu as escadas, dirigiu-se para o altar e abriu o sacrário. Fê-lo com alguma dificuldade porque estava um pouco acima do seu alcance natural, colocou lá dentro um objecto, que retirara do saco, não consegui vislumbrar o que seria pela falta de claridade apesar da ténue luz mesmo por cima. De seguida, colocou outro objecto, idêntico pelas suas formas redondas, dentro do saco. Tê-lo-ia retirado certamente do sítio onde colocou o que trazia. Que estaria a fazer? De seguida dirigiu-se para uma porta lateral ao altar, calculei que fosse a sacristia. Antes de desaparecer, o homem que nunca me tinha olhado nem actuado como se eu lá estivesse, olhou-me repentinamente com um olhar fixo que me deixou com os pelos em pé, e desapareceu! Dei de imediato uns passos em frente para tentar segui-lo com o olhar mas a falta de luz e o barulho que fazia ao caminhar fizeram-me parar de imediato. Fiquei mais uma vez imóvel e voltou o silêncio absoluto, ao ponto de quase se conseguir ouvir o ruído da cera a derreter nas velas do altar. Olhei para todos os lados da capela sem ver ninguém nem algum movimento, não me apeteceu sair dali sem antes digerir aquele episódio e sentei-me no banco da frente da fila da esquerda que estava, agora, mesmo ao meu lado. Sentado, voltei a olhar em todas as direcções, ficara inquietado com o que se passara.


Passados alguns minutos sem que me lembre do que entretanto pensei ou ouvi, ocorreu-me a possibilidade de subir ao altar para descobrir qual seria o misterioso objecto. A curiosidade era enorme mas não podia, ia contra os meus princípios mexer em coisas sagradas e pensei: deve ser com certeza um pecado. Ainda para mais correr o risco de ser apanhado, podiam-me acusar de roubo! Mas se fosse à sacristia não corria tantos riscos e era uma forma de provar a mim próprio a minha impavidade perante a situação. Entrei na sacristia, afastando o pano pesado que tapava a entrada, o cheiro a mofo ali ainda era mais acentuado e a visibilidade nula. Só no momento em que ouço um barulho de correntes muito perto de mim me dei conta que o homem ainda ali poderia estar.


 


O barulho das correntes depressa se traduziu num inquietante badalar dos sinos da capela que a calcular pela origem do som, deveriam estar colocados mesmo por cima de mim. Não vislumbrava um palmo à minha frente e estava sem perceber se os sinos estariam a ser activados automaticamente ou pelo homem de há pouco. Teria dado pela minha presença? Os sinos pararam e eu ainda ali estava sem saber o que fazer, sentia-me protegido pela escuridão... Agora era um relógio de parede que dava horas com uma campainha rouca e que se arrastava o som entre as batidas. Parou, deu cinco horas e agora o silêncio reinava de novo! Passados alguns segundos percebi que o homem teria saído entretanto, não havia qualquer sinal da sua presença. Desencorajei-me e resolvi voltar à nave da capela, que agora me parecia mais ampla e mais iluminada, voltei-me para o altar, benzi-me e dirigi-me para a porta de madeira da entrada.

Autor: João Oliveira(proliv) Ver o perfil do utilizadorver perfil do autor Data: 2008-12-12 22:58:00
Nevoeiro Parte II

Ao sair apercebi-me que passara mais tempo do que eu pensava, a noite tinha caído, as luzes estavam acesas e havia mais vida na rua, este facto pareceu-me estranho, a que se deveria? Numa Vila onde há uma hora não se via praticamente ninguém e reinava a calma quase absoluta, agora abundavam as pessoas, parecendo terem saído em grupo de algum sítio. Achei bizarro mas resolvi descer os degraus da Capela e infiltrar-me no meio daquela multidão que parecia cada vez maior. Continuei pela rua paralela à capela, por onde seguia antes. Depois de uma pequena descida, que dava acesso ao que parecia uma praça ampla, com árvores e com construções mais recentes.



Esta zona que via à minha frente era já a parte exterior da muralha. Havia agora menos pessoas perto de mim e fora da muralha não se via viva alma. Vi dois ou três jovens, que em passo apressado se dirigiam para o interior da muralha. Pensei que houvesse algum evento de importante no interior da Vila, algum espectáculo de natal, pensei... Mesmo assim interpelei os jovens e perguntei-lhes o porquê de tanta gente dentro da muralha, haveria algo? Pararam bruscamente, já na atrás de mim, em direcção ao interior da Vila, olharam-me como se muito admirados e depois fitaram-se. Neste mesmo instante entrava na muralha, mesmo por trás de mim, um senhor de idade avançada, que me pousa a mão no ombro como que para se apoiar para repousar da caminhada e disse a um dos rapazes, "vai Miguel, encontramo-nos no Arco do Museu". Eles foram olhando para trás desconfiados e desapareceram na multidão. Naquele ponto em que me encontrava, via-se a rua que atravessava a Vila de ponta a ponta repleta de gente. O senhor idoso retirou a mão do meu ombro e colocando-se mais à minha frente, apoiando-se na bengala, disse-me: Não é de cá pois não, eu respondi: Não, a que se deve esta concentração de pessoas? Aproveitei para satisfazer a minha curiosidade. Dirigindo-se pela rua abaixo, respondeu: Venha, Venha, o sol já se pôs e não tardam aí... Apressei-me para o acompanhar e perguntei-lhe: Quem? Quem vem aí? Siga-me, disse o senhor, já alguns metros à minha frente. Assim o fiz, segui-o de perto por entre a multidão, viramos numa viela à direita, subimos uma rampa que tinha um sinal indicando o Museu Municipal do Cinema, ao fim da pequena subida, estava um arco em pedra que era uma saída para a muralha. Os rapazes de há pouco estavam lá como combinado e puseram-se a pé assim que viram o idoso que me acompanhava. Pelas expressões deles, era alguém que respeitavam e obedeciam, e parecia que estavam ali por causa dele.



Enquanto se dirigia para o arco, com os jovens ao seu lado, parou por um instante, virou-se para mim e disse: “Entre no museu do cinema e vá à galeria do Charlot, o vídeo explica tudo” e saíram pelo arco e viraram à direita. Fiquei ali especado sem perceber muito bem e intrigado com aquelas pessoas e decidi atravessar o arco, olhei para a direita e a única coisa que vi foi uma escada de pedra, que fazia parte da muralha e parecia dar acesso a um nível superior da muralha, mas já não vi ninguém. Aquela saída só dava acesso a essa escada, à minha frente existia um precipício e estava escuro como breu.



De dentro da muralha, alguém me gritou: “Venha cá para dentro homem, quer morrer?”. Não vi que foi mas ainda fiquei mais curioso, e embora quisesse saber que era feito dos jovens e do senhor idoso, achei que seria melhor alguma prudência e entrar no Museu do Cinema à procura de algumas respostas.



Subi as escadas do museu e à porta encontravam-se dois agentes da GNR que me interpelaram, revistaram e me perguntaram: “Sabe que este local é reservado?” disse: Não, eu não sou de cá e não sei o que se passa, a que se deve toda esta agitação e mistério, foi um senhor que ainda agora estava aqui comigo que me disse para visitar a Galeria do Charlot. Depois de trocarem olhares, um deles revistou-me, pediu-me o BI, ficando com ele, prometendo devolvê-lo à saída.

Autor: João Oliveira(proliv) Ver o perfil do utilizadorver perfil do autor Data: 2008-12-12 22:59:00
Nevoeiro Parte III

Entrei finalmente, o ambiente era bem mais calmo, havia algumas pessoas mas não parecia estarem de visita, andavam de um lado para o outro, subindo escadas e descendo, entrando em portas parecia que havia entrado num qualquer serviço público mas a azáfama não era muita. Uma senhora que estava no balcão, mesmo em frente à entrada chamou-me e perguntou: -Quer visitar o museu? Disse: sim, onde fica a Galeria Charlot? – Depois da entrada à sua esquerda, é ao fundo do corredor. – Obrigada! Segui a indicação e pensei para mim, que estranho, parece mesmo um museu normal porquê a movimentação... será que não se passará nada e estou a imaginar coisas?! Tinha, por esta altura, já entrado uma sala, a única naquele corredor, não indicava galeria Charlot mas era óbvio pelos artigos expostos.



Entrei e reparei que a sala estava dividida por uma parede falsa onde havia quadros e cartazes alusivos ao cinema do Charlot. Não havia ninguém. A passagem para a outra ala era encostada à parede de pedra do lado esquerdo. Ao entrar fiquei espantado por ver uma plateia muito atenta a olhar para uma tela onde passava um filme. No instante em que entrei, uma senhora com um uniforme formal do exército, dirigiu-se a mim disse-me que se quisesse assistir, teria que ficar em pé e em silêncio, pois não havia mais lugares. Concordei, mesmo tratando-se de uma mulher, impunha respeito pela postura rígida e pelos galões e medalhas no uniforme.



Passados trinta minutos a senhora do uniforme disse-nos que nos dirigíssemos para o exterior do museu e permanecêssemos dentro da muralha. Assim o fizemos. Agora tudo era claro, tinha compreendido o porquê de todo aquele aglomerado de pessoas restrito ao interior da muralha.



Saímos e a multidão continuava na rua. Alguém tinha feito uma fogueira no fundo das escadas do museu. Agora entendia e estava solidário com a expressão no rosto das pessoas, ao mesmo tempo que tentava uma explicação para uma explicação tão complexa.

Autor: João Oliveira(proliv) Ver o perfil do utilizadorver perfil do autor Data: 2008-12-12 22:59:00
Nevoeiro Parte IV

No momento em que descia as escadas, lembrei-me do Senhor de há pouco e resolvi procurá-lo, lembrei-me que tinha ido pelas escadas depois do arco à minha direita. Ao dirigir-me para lá, deparei com dois militares empunhando metralhadoras, estavam de costas para mim, virados para fora da muralha, parecendo estar de sentinela. Não tive coragem de lhes perguntar se podia aceder às escadas, certamente diriam que não. Decidi então tentar outro acesso à parte superior, onde se via uma torre de menagem iluminada. Certamente teriam ido para lá. Decidi perguntar a alguém se havia algum acesso para a torre, o senhor a quem perguntei, disse-me: Não é permitido subir, desta vez fecharam o acesso à torre, parece que o exército está a usar a instalado lá. Ao mesmo tempo a senhora que estava de braço dado a ele, supostamente esposa, disse: Parece que estão a fazer experiências. Falando agora mais em surdina, como se fosse um segredo, sussurrou: Parece que descobriram algo, ninguém sabe o que é mas diz-se que é o… Sem que pudesse terminar a frase, o marido disse-lhe: Não digas disparates mulher! Como podes acreditar nessas coisas se eles garantem que são fenómenos atmosféricos localizados, realmente… disse ele no momento em que puxou pelo braço da mulher e foram os dois pela rua abaixo.



Fiquei a pensar no que iria dizer a mulher. No vídeo que tinha visto, explicavam cientificamente um fenómeno estranho que acontecia no exterior da muralha num raio de 2 Km, uma neblina muito densa mas fugaz, não parecia nevoeiro, apoderava-se de todo o redor da vila exterior à muralha. Deixava as pessoas imóveis toda a noite, de olhos abertos e fixos num ponto. Passaram algumas filmagens de pessoas nesse estado, passaram também testemunhos de indivíduos que passaram pela experiência e da qual não guardavam nenhuma memória do sucedido, embora estivessem perfeitamente de saúde. Um meteorologista, explicava com termos técnicos muito complicados que se devia à concentração de um gás na atmosfera e que o facto de se limitar ao exterior da muralha, devia-se, “provavelmente”, à estrutura em pedra e à elevação superior da muralha, mas estavam ainda a fazer testes científicos à constituição da neblina para apurar a origem daquele fenómeno que ainda mais intrigantemente, só afectava o ser humano, os animais pareciam imunes aos efeitos daquele misterioso nevoeiro.

Dirigi-me uma fenda da muralha para poder ver tal fenómeno, era quase meia noite, segundo o documentário, a neblina começava a formar-se às zero horas em ponto e levantava-se às seis da madrugada.

Autor: Hugo Lagido(hlagido) Ver o perfil do utilizadorver perfil do autor Data: 2008-12-13 19:55:00
Nevoeiro Parte V

Sentia-me inseguro, como se alguém estivesse-me a observar, escorria por mim um frio suor enquanto observava pela estreita frincha e deves em quando olhava para trás. Parecia um ladrão, um espião… num sei realmente o que estaria a fazer. Durante uns curtos minutos, que pareciam horas, nada de estranho acontecia, já passava da meia-noite e cada vez estava mais tenso. Num acto instintivo olhei para o céu e realmente algo de muito estranho estava a acontecer. A tonalidade do céu era semelhante a uma noite de luar mas não havia lua, nem estrelas nem nuvens, parecia que o dia estava para nascer. Fiquei pasmado a olhar para o céu, a pele ficou de galinha, o ritmo cardíaco aumentou, senti a forte injecção de adrenalina a escorrer para o sangue e todos os meus sentidos ficaram em alerta.


 

Sentia-me como um soldado, um aventureiro ou um agente secreto. Durante algum tempo fiquei a olhar para o céu e ao meu arredor como a espera de algo paranormal, os músculos estavam tensos pronto para uma rápida resposta a alguma espécie de ataque. De repente, lembrei-me de observar novamente pela frincha da muralha e estava a acontecer! Uma neblina de aspecto pesado rastejava-se pelo chão, não consegui ver de onde vinha, mas lentamente numa camada de pouco mais de um palmo espalhava-se pelas ruas de Melgaço. O que mais me intrigava era de onde vinha a neblina! Tinha que observar em outro lugar.
Autor: João Oliveira(proliv) Ver o perfil do utilizadorver perfil do autor Data: 2008-12-13 22:33:00
Parte VI

Resolvi saír dali, para um sítio onde houvesse menos gente e que fosse menos exposto. Enquanto me infiltrava pela rua principal percebi que a neblina que tinha avistado no exterior da muralha serpenteava agora pelo chão e aumentava de espessura à medida que eu avançava para o centro da Vila. As pessoas perderam a eufuria e estavam agora concentradas a olhar para o chão e para os seus pés na tentativa de perceber a natureza de tal fenómeno.



 Ao fundo da rua onde me encontrava estava um miudo que apontava na direcção do céu com uma das mãos e com o indicador esticado, sem retirar o olhar ao mesmo tempo que puxava persistentemente o casaco do pai com a outra mão. Isntantes depois a multidão distraída com o manto rastejante voltou as suas cabeças para o céu que parecia cada vêz mais claro embora ainda fosse de madrugada.


Naquele momento, em que também me voltei para cima, senti-me sozinho, esqueci-me que estava rodeado de gente, esqueci-me que a neblina continuava a passar por entre os meus pés continuando a subir. A imagem que se deparou por cima das nossas cabeças mobilizou-me, a mim e a todos suponho eu, mas disso não me lembro. Não podia acreditar que o que estava ali pudesse estar a aparecer assim, de repente e  à medida que o nevoeiro por cima de nós se dissipava. No momento em que voltei a ouvir as voses das outras pessoas por ter recuperado a lucidez de sentidos pude também interrogar-me sobre o que seria responsável por naquele momento estar a ver um reflexo nítido e não muito longínquo do interior da murallha de Melgaço. Por cima de nós, mais ou menos à distância de dois prédios de três andares estavam as pessoas, os edifícios e até as muralhas reflectidas. No entanto não parecia reflectido por um espelho comum, no momento em que tentava procurar o meu reflexo, reparei que se vislumbravam estrelas no céu, aquele reflexo tinha transparência. Isto é inconcebíbel dizia alguém ao meu lado, não sei quem era nem como era, sentia-me incapaz de retirar o olhar do céu e o mesmo estava a acontecer com o resto das pessoas que estavam ao meu lado.


Algum tempo depois, pensei, porque não entram as pessoas em pânico? Isto não é aterrador mas é... no mínimo muito fora do normal.


Nunca pensei que fosse acabar assim meu Deus persistiu a pessoa que estava ao meu lado numa voz áspera e quase suplicante como se soubesse exactamenteo que estava a acontecer naquela noite. Voltei a olhar para baixo, na direcção das pessoas, na esperança de encontrar quem falava. A maior parte das pessoas continuavam a olhar para cima, outras interrogavam-se incrédulas com o fenómeno, no cimo da rua perto da muralha via-se alguma movimentação que me intrigou pareceu-me ver um grupo de militares a correr em direcção à entrada do museu do cinema, entertanto voltei a ouvir a mesma voz que murmurava, parecia rezar. Ao meu lado, a inconfundível personagem, reconheci mal o vi, baixa estatura e uma corcunda nas costas que agora era bem mais visível porque estava com os olhos postos no chao e com as mãos juntas coladas ao peito como quem está no meio de uma prece sentida e profunda. Tinha que lhe falar mas...

Autor: Hugo Lagido(hlagido) Ver o perfil do utilizadorver perfil do autor Data: 2008-12-14 15:50:00
Nevoeiro parte VII

Olhei para o relógio da capela e fiquei incrédulo quando os ponteiros apontavam para as seis horas. De modo a confirmar tirei do bolso esquerdo o telemóvel e realmente eram seis da manha! Teria acontecido o fenómeno? Mas pelos relatos que a gente contava o interior das muralhas estava imune! Eu só me lembra de uma baixa e espessa neblina que tapavam os pés!


 

Quando voltei a olhar ao meu arredor a multidão tinha-se dispersado, voltei a olhar para o céu e já tinha aspecto normal de uma noite de Inverno, olhei novamente para o relógio da capela e deparei que tinham passado 10 minutos! Num pode ser! Ainda tinha o telemóvel na mão e confirmo a hora, também deparo que estou sem cobertura em pleno centro de Melgaço.

 

Apesar de ser de madrugada não estava cansado, não tinha fome nem sede, não sabia o que fazer. Não sou pessoa de estar parado! Decidi então passear pelas ruelas pouco iluminadas do centro da vila e procurar respostas as minhas questões.

 

Eu vim a Melgaço passar uma tarde diferente mas não desta forma. O fenómeno que aqui acontece apenas foi falado na prensa sensacionalista, muitas pessoas acreditam ser um mito e a grande maioria desconhece a existência do mesmo, mas porquê? Alguém quer encobrir algo? A que se deve tanta presença militar? Sabia que por algum motivo teria que descobrir o porquê disto tudo! O pior é que estava sozinho e inclusive temia não conseguir sair ou transmitir paras o exterior o que aqui se estava a passar.
Autor: João Oliveira(proliv) Ver o perfil do utilizadorver perfil do autor Data: 2008-12-15 21:41:00
Nevoeiro Parte VIII

Esse medo depressa se tornou secundário ao perceber que não podiam ter passado dez minutos, e além do mais as pessoas não podiam ter desaparecido de um momento para o outro, junto ao museu de cinema tudo estava normal, duas luzes infiltradas no chão iluminavam a fachada, a saída da muralha estava livre e já não estava guardada. Eu teria sonhado? pensei...


Nesse mesmo momento, pensei em saír daquela muralha ainda com o medo de não o conseguir presente na minha mente e dirigi-me rua abaixo com o passo ligeiramente apressado, olhei duas ou três vezes para trás sem ver ninguém, estava tudo normal. Enquanto caminhava voltei a olhar para o telemóvel, era 6:13 e o indicador de sinal de antena indicava três níveis. O pensamento sobre o que se teria passado ocupava o meu cérebro enquanto me aproximava da entrada principal da muralha, aproximava-me também da rua onde tinha visto os gatos pretos quando cheguei  e senti um arrepio na espinha, aquele momento tinha sido tão real, o que aconteceu não pode ter sido um sonho ou uma alucinação, matutei novamente. Ao passar essa rua, à minha esquerda não resisti à vontade de olhar. Quando olhei vi um vulto ao fundo dessa rua a virar para a esquerda, o meu primeiro impulso foi segui-lo mas já tinha desaparecido e a saída da muralha estava a uns escassos 30 metros. Ainda hoje não sei porque tomei aquela decisão mas decidi seguir o vulto, corri rua abaixo, virei à esquerda onde ele tinha virado e avistei-o novamente, seguia num passo míudinho mas não andava muito depressa. Achei melhor manter uma boa distância para não ser visto, levava um sobretudo preto aos ombros que lhe chegava aos pés.


Andei atrás dele uns metros até que virou novamente à esquerda, pareceu-me ter olhado disfarçadamente por entre os ombros no momento em que virava para outra rua. Viu-me pensei... desacelerei a marcha mas não parei, estamos numa rua, é público eu posso caminhar por onde me apetecer e voltei a acelerar o passo para não o perder, aquela personagem parecia-me agora ainda mais suspeita. Preparo-me para virar e estava agora numa rua que subia em direcção ao centro da vila a calcular pelo meu sentido de orientação, ele continuava a sua marcha, via-se nitidamente que lhe custava porque a subida era bastante acentuada, virou agora à direita e olhou-me novamente pelo ombro, agora tive a certeza, ele sabe que o sigo, apesar de tudo o olhar pareceu-me convidativo.


Já começava a romper o dia e talvez por isso não senti receio em segui-lo. Virei na mesma rua que ele e já não o avistei, aquela rua dava directamente ao adro da Igreja onde já tinha estado há algumas horas. Caminhei até ao centro do adro e reparei que o homem que seguia estava a entrar pela lateral da Igreja, ele entrou, e não bateu a porta, era certamente um convite para o seguir.


Ao entrar na porta que estava entreaberta voltei a sentir o cheiro característico da Igreja, o mesmo que tinha sentido há algumas horas, caminhei até ao centro da capela pisando o soalho que rangia, e parei no intervalo de dois bancos apoiando-me para avaliar o que ali estava a fazer. Entertanto ouvi o chão ranger em direcção a mim, olhei e deparei-me com o senhor da corcunda de há pouco, associei facilmete que era a mesma pessoa que estava a seguir, já tinha tirado o sobretudo e a corcunda identificava-o.


Parou frente a mim, sentou-se no mesmo banco em que me apoiava e numa voz rouca que já ouvira antes, agora mais familiar e calma, disse-me: senta-te!

Autor: Hugo Lagido(hlagido) Ver o perfil do utilizadorver perfil do autor Data: 2008-12-15 22:27:00
Parte IX

Instintivamente sentei-me, achei estranha aquela abordagem, contudo algo me dizia para seguir e ouvir o que aquele velhote me tinha para dizer. Olhei para ele e sem tempo para esboçar um resposta, falou novamente:


 

- Eu sei que não és um deles, eles não entram na casa do Senhor.

- Quem são eles?

- Servos de Lúcifer.

- Está-se a referir ao diabo, Satanás?

- Trabalham para ele, aparecem por entre o nevoeiro, engolem as estrelas e iluminam com a luz do inferno.

 

O tom firme e convicto daquele ancião, aliado a pouco iluminada capela, fez-me novamente sentir um arrepio que nasceu na bacia e prolongou-se até o ultimo cabelo da cabeça e espalhando-se pelas costas. Pessoalmente não acredito em superstições com base em dados bíblicos, contudo continuei a ouvir aquele ancião.

 

- Estão a ganhar-nos terreno, eu tenho-te observado e acho que és o enviado.

- O enviado?

- Sim, estiveste exposto a eles e ficaste imune. Eu consegui refugiar-me na igreja, mas o ataque de ontem foi muito forte e conseguiram invadir as muralhas.

- E como sabes que eu estou imune? Quem esta infectado? De que se trata a infecção?

- Como te disse eles não entram na casa do senhor, tu conseguirás diferencia-los pelas pupilas cor de sangue. O nevoeiro leva-lhes as almas, há um buraco que as aspira para o inferno. As pessoas infectadas são pessoas sem alma, sem sentimentos, são corpos vivos que vagueiam pelas terras de Melgaço.

 

Naquele momento, pareceu-me que o velhote estava a delirar, certamente estava louco e tentava procurar explicações absurdas ao que realmente estava a acontecer. Aproveitando o tom áspero e satânico do velhote como a discutir virado para o altar, decidi fugir num andar felino daquele lugar.
Autor: João Oliveira(proliv) Ver o perfil do utilizadorver perfil do autor Data: 2008-12-16 01:29:00
Parte X

Ao ver que me dirigia para a porta, o homem pareceu voltar a si e disse numa voz firme:

-Espera, não vás já, tenho uma coisa para ti

-Peço desculpa mas tenho que voltar, já perdi demasiado tempo aqui e tenho pessoas que me esperam

-Não, espera só um minuto.

O homem parecia ter recuperado a sua lucidêz e o seu apelo convenceu-me a esperar por ele. Dirigiu-se ao altar com passadas apressadas, subiu as pequenas escadas, contornou o altar e abriu o sacrário. Já o tinha visto fazer aquele gesto quando entrara antes na capela e fiquei curioso.

Retirou algo lá de dentro que não consegui perceber ao certo o que era, entertanto disse-me: -Aproxima-te. Hesitei mas decidi ir ter com ele, já antes tinha ficado intrigado com a troca de objectos que havia feito há horas e agora era a minha oportunidade para perceber do que se tratava.

Quando cheguei perto dele percebi que o que tinha nas mãos era um frasco que parecia conter um vinho. Antes que pudesse dizer algo disse-me:

-Isto é licor de cereja, é feito há centenas de anos no convento dos frades beneditinos da aldeia de Mações.

-Para que o coloca aí dentro, vi-o trocar algo há algumas horas, era esse licor?

-Sim rapaz, era este precioso licor.

Disse aquilo de forma pausada e pensativa ao mesmo tempo que o aconchegou com as duas mãos.

-Para que o coloca aí dentro? Faz parte da cerimónia da missa?

-Não, só eu e o padre Alberto é que transportamos o licor. Este licor é que mantinha a vila impenetrável e esta noite aconteceu uma desgraça.

-Uma desgraça?

-Sim, o padre Alberto não apareceu... Não apareceu e tinha que vir. Agora estamos perdidos.

O voz do homem adquiriu um tom trémule e de choro, eu não sabia o que dizer e o que me ocorreu foi perguntar, porquê? Porque estamos perdidos?

Ele recompos-se o que pôde disse:

-O padre Alberto é o único que pode transportar o licor sagrado para fora das muralhas sem ser marcado.

-Marcado? e transportar para onde?

-Calma, eu conto-lhe, eu conto-lhe!

-Há 200 anos, na casa onde agora está instalado o museu do cinema, vivia um conde francês, chamava-se August de Gant. Naquele tempo dizia-se que ele era filho de Santanás. Só estava cá 3 vezes por ano, e quando não estava deixava quatro homens que guardavam a casa dia e noite sem nunca sairem do seu posto.

-Nem para se alimentarem ou dormir.

-Sim de certo sim, esses não eram sobrenaturais. Continuando então. As pessoas diziam que havia todas as noites luz na casa ebarulho de festas, as pessoas naquele tempo ouviam risos de mulheres e homens sem nunca os terem visto.

Os guardas apenas guardaram a casa por fora. Um dia, o regedor destas terras soube deste caso estranho e enviou uma montada de doze homens para desvendarem o mistério.

O homem fez uma pausa para tossir, com alguma persistência. Eu estava bastante curioso para saber a continuidade embora soubesse que se deveria tratar de uma lenda como muitas, no entanto pergutei:

-O que aconteceu então?

-Nada.

-Nada,como assim?

-No dia em que os cavaleiros chegaram, a casa estava o conde francês que os convidou a visitar a casa. Não acharam nada de estranho e voltaram desacreditando assim o povo que aqui vivia.

-Então e depois?

-Diz-se que depois desse dia, a Vila nunca mais foi a mesma, uns dizem que foi invadida várias vezes pelo enimigo e completamente dizimada, outros que fustigada por doênças horríveis, o que parece certo é que o conde Gant nunca mais voltou e retirou a guarda que mantinha há anos em sua casa.

-Então e o que tem isso a ver com este licor e o padre Alberto?

-O padre Alberto é um frade no convento de Mações e é muito próximo da família dos descendentes do conde August de Gant.

-Descendentes, mas eles vivem cá?

-Sim, O senhor Charles Gant veio de frança há 10 anos para viver a sua reforma e doou a sua colecção particular de cinema à Câmara Municipal, que construiu o museu do Cinema na antiga casa de August Gant.

-Eu estive lá a assistir a um documentário sobre este fenómeno, dizem que se trata de acontecimentos atmosféricos localizados...

-Ah ah ah! fenómenos atmosféricos... Ah ah ah!

O seu riso pareceu-me maqueavélico a ecoar nas madeiras da Capela. Fiquei apreensivo. Quando se recompôs disse num tom irado:

-Fenómenos atmosféricos o tanas meu filho, isto é obra de Santanás e o padre e o licor eram a nossa única defesa. Estamos perdidos e sós!

Esta última palavra ecoou severamente até aos meus ouvidos e pela primeira vez pensei que o velhote poderia ter algo de verdade nas suas palavras. Fez-se algum silêncio, ele mantinha-se sentado ao meu lado com as mãos e a cabeça na mesma posição de quando o vi por breves instantes durante o aparecimento do espelho no céu. Eu sem saber o que dizer e perguntei.

-Mas então o que provoca tudo isto afinal? E como se chama o senhor, posso saber o seu nome?

-Sim eu chamo-me Damião Curto, mas toda a gente me trata por Curto ou Curtinho, porque sou mesmo curto, tu sabes...

-Tudo bem Sr Damião, então pode continuar a contar-me a história da família do tal Gant?

 

Autor: Hugo Lagido(hlagido) Ver o perfil do utilizadorver perfil do autor Data: 2008-12-18 22:36:00
Parte XI

- Na realidade pouco se sabe sobre a família Gant. O conde Gant chegou a Melgaço no ano de 1754. Chegou numa madrugada de nevoeiro. Vinha num coche preto com alguma decoração em ouro. O coche era puxado por 4 agressivos e atléticos cavalos pretos. O conde Gant chegou acompanhado pelos seus 4 súbditos guardiões. O aspecto do conde Gant era assustador. O homem era altíssimo, a sua estatura deveria rondar os 2 metros, a pele era branca como a neve, os olhos eram muito claros e tinha as pupilas vermelhas.


- Pupilas vermelhas! - Exclamei lembrando-me do que me tinha dito dentro da igreja.

- Sim pupilas vermelhas, é o primeiro relato que existe de alguém com pupilas vermelhas. Mas vou continuar com a história do Conde Gant. O conde Gant usava sempre a mesma vestimenta uma longa túnica preta com um capucho. Nunca tirou o capucho! Há quem afirme que era careca e que tinha protuberâncias na cabeça.

- Cornos !?

- Sim, por outras palavras é isso, mas não passa de uma lenda. Voltando a História o Conde Gant, adquiriu a que é actual casa do cinema em moedas de ouro. Ofereceu 10 vezes o valor dela e pagou em ouro. O dinheiro do Conde Gant, permitiu uma forte evolução na vila. Ele dominava o Português como se fosse língua nativa dele, o estranho é que não existem registos do conde Gant ter estado em outra parte do território Português. Contudo praticamente só falou a primeira vez quando chegou a vila. Durante o dia não saia de casa, a noite saia com um dos seus brutais cavalos a passear pelas terras de Melgaço.

- Mas afinal que tem que ver o Conde Gant com o Nevoeiro? – Perguntei ao Curtinho,

- Tem que ver com a Morte do Conde Gant.

- Com a morte?

- Sim, não existem registos de quando nem exactamente onde morreu. A última vez que se viu o Conde foi em Melgaço. Numa noite de Inverno, pouco depois dele sair, o céu ficou alarnjado, as estrelas desapareceram o tempo aqueceu inexplicavelmente, ouvia-se ruído de almas a gritar. Uma forte brisa correu pelas ruas de Melgaço. Depois veio o nevoeiro na forma espessa e pessada como a que temos visto nos últimos dias. E por fim o silêncio. Na realidade o que aconteceu é que o conde Gant foi aspirado em corpo e alma para o inferno e abriu um buraco aqui em Melgaço por onde sai o nevoeiro.

- E o licor? O que é o licor? O que realmente faz?
Autor: João Oliveira(proliv) Ver o perfil do utilizadorver perfil do autor Data: 2009-01-03 11:43:00
Parte XII

-Se não fosses o escolhido não te mostrarias tão interessado com todas estas interrogações, a vontade de recordar está nas tuas veias!

-O quê???

-Tu vais perceber, tu vais perceber, não passa deste dia.

-Chega.... Sr. Curto! ou lá como se chama. Não passas de um velho a contar histórias absurdas. Arranja outro ouvinte para passares o tempo.


Dito esta frase, dirigi-me para a porta principal da Capela que estava fechada, voltei para trás com a mesma raiva e dirigi-me para a porta lateral sem olhar para o velhote. Mas sei que ele naquela altura estava a olhar para mim.

Cheguei ao Largo da Igreja, olhei para a torre da Igreja, eram 9:30 da manhã. Não percebia muito bem a ira que sentia naquele momento, porque ficara tão zangado por ele ter dito que eu iria perceber que sou o escolhido. Naquele momento, sem querer pensar mais no assunto dirigi-me o mais depressa que pude pela rua principal em direcção à arcada de saída da muralha.

Ao saír da muralha, aconteceu!

Senti um forte aperto no peito e caí de joelhos no chão, senti-me imóvel e sem forças, ao mesmo tempo que um sentimento de tristeza se apoderou de mim. Parei em frente a uma estátua de bronze com duas mulheres, uma com cabelos longos, com os braços esguidos junto à cabeça, como se que atacando a outra que estava deitada aos seus pés com as mãos em defesa. Por baixo destas duas personagens as muralhas de Melgaço envolvidas por um Manto. O nevoeiro, pensei...



Ao ver aquela imagem senti o sangue a correr-me nas veias e o coração a bater cada vez mais forte. A minha força voltou e parecia reforçada, sentia-me mais leve e mais forte.


À medida que tentava perceber o que se tinha passado comigo, olhava para aquela estátua cada vez mais me parecia familiar, o Sr. Curto aproximou-se de mim e colocou a sua mão no meu ombro, eu ainda estava de joelhos mas recomposto. Enquanto me erguia, olhei para ele e perguntei-lhe:

-O que se está a passar comigo?

-A revelação, estás a acordar para o teu verdadeiro propósito. Desde que te vi que soube que és o escolhido de Inês Negra.

-Quem?

-Essa estátua representa a escaramuça de 1387 entre uma Mulher do Povo e uma da Nobreza, ainda dos tempos em que Melgaço era governado por Castela.

-E então?

-Nessa escaramuça Inês Negra destruiu o mal que vivia dentro destas muralhas, o mesmo mal com que nos defrontamos agora. Sim, o que se passa aqui acontece há muitos séculos. Inês foi a última a enfrentá-lo.

Naquele tempo, Inês destruiu o o mal personificado numa donzela da Nobreza Castelhana, agora esse mesmo mal existe na forma do Conde Gant que agora voltou quatro séculos depois. Tu és o herdeiro dos poderes de Inês meu jovem, não podes fugir ao teu destino.

-Não tinha dito que o conde Gant foi sugado para o inferno?

-Sim, quando alguém é sugado para o inferno, é criada uma porta que o mesmo pode voltar a fechar mas o Gant deixou-a aberta para poder voltar e trazer com ele o mal que Inês Negra destruiu.

Autor: Hugo Lagido(hlagido) Ver o perfil do utilizadorver perfil do autor Data: 2009-02-09 22:36:00
Parte XIII

 


Sentia o sangue pesado a circular pelas minhas pernas, os músculos estavam doridos, notei uma leve brisa a entrar pelos colarinhos da camisa, que provocaram um arrepio que percorreu da cabeça até as unhas dos pés. Não sabia ao certo se estava acordado ou a sonhar, pois o cansaço e a fome faziam-me sentir num estado de transe. Ouvia como se o Sr. Curto fala-se para mim através de outra dimensão, mas sabia que ele estava exactamente ali ao meu lado. Naquele preciso instante olhei para o relógio e percebi-me que estive acordado durante 12 horas sem descansar nem comer, no meio de estranhos acontecimentos e relevações. Virei o meu pesado olhar para o Curtinho e disse:

 

- Sr Curto vou para o carro descansar, preciso mesmo descansar.

 

Virei costas e comecei a caminhada em direcção ao meu carro, o caminho parecia longo e infinito, mas precisava de ir para um lugar que me sentisse seguro e poder descansar e esse lugar só podia ser o meu carro, contudo deparo-me com um grito:

 

- Espera! Disse num tom seco e pesado o velhote – a minha casa é já esta aqui! Podes tomar o pequeno-almoço e descansar na minha casa.

 

O duro calvário que me parecia chegar ao meu automóvel quando comparado com o aspecto acolhedor da vivenda no interior das muralhas fez-me inclinar a balança para um sim! Normalmente não aceitaria um convite daqueles por parte de um desconhecido, mas vistos a situação voltei-me para o velhote, e disse:

 

- Obrigado, aceito com muito gosto o seu convite!

 

Dirige-me então para a casa do Sr. Curto, a casa apresentava uma ampla sala onde teria uma grande lareira, um fogão de lenha uma grande mesa de jantar um amplo e confortável sofá onde me sentei e adormeci quase que instantaneamente. Enquanto dormia o Sr. Curto preparou um pão com manteiga, aqueceu café e deixou em cima do fogão de lenha para não arrefecer. Saiu para ajudar a missa das 11 e deixou uma nota a dizer que voltava ao meio-dia.
Autor: Hugo Lagido(hlagido) Ver o perfil do utilizadorver perfil do autor Data: 2009-02-11 21:39:00
Parte XIV

 


Acordei de repente, não sabia muito bem onde estava, que horas eram o que era sonho e o que foi real. Com uma grande lentidão comecei a associar tudo, estava na casa do Sr. Curto, olho ao meu redor não vejo ninguém. Em cima da mesa uma nota e um cesto com pão. Levantei-me, em suaves e sonolentos passos dirigi-me a mesa, peguei a nota e li:

 

Fui ajudar a missa, volto ao meio-dia, se acordares entretanto não deves sair de casa pois corres perigo, ninguém sabe da tua presença na vila.

 

P.S. Deixei-te pão com manteiga, tens café quente no fogão de lenha.

 

Peguei no telemóvel, verifiquei que eram 11H30, apenas tinha passado pelas brasas. Já me sentia menos cansado sentei-me na mesa e comi o pão que o Sr. Curto tinha preparado e bebi o café. Com o percorrer da cafeína pelas minhas veias, o corpo e mente voltaram a actividade! E comecei a pensar para mim:

 

- O que é o nevoeiro?

- Porquê a meia-noite?

- Que fazia aquele aparato militar todo? Para onde foi?

- Porquê o acesso restrito a torre?

- Porquê desapareceram as estrelas a meia-noite? O que era aquele reflexo no céu durante a noite?

- Quem realmente era o Conde Gant?

- Onde é o buraco que dá acesso ao Inferno?

- Que é o licor?

- Porque sou o eleito?

 

Nada fazia sentido! Seguramente que devia ter tido algum tipo de ilusão, não sei, mas algo me dizia que não deveria confiar no Sr. Curto e que deveria procurar respostas as minhas perguntas e essas respostas estão lá fora. O primeiro sitio que deveria visitar é a torre, pois se há algo de estranho deve estar sob comando da torre. Levantei-me, sentia-me lúcido, algo cansado, mas a forte dose de cafeína iria-me deixar acordado por algum tempo, apenas devo ir a torre e verificar que não se passa nada e ir embora para casa.
O autor desta história e os seus participantes gostarima muito de receber o teu comentário!
Autor: Meninha Data: 2009-01-06 18:06:00

A falta de ler o relato a fondo outro par de veces, pois aínda que entendo bastante ben, a lectura e a comprensión da mesma fánseme lentas, atopo o relato moi intrigante. Parabéns pola descrición minuciosa de detalles da cidade e das súas xentes. Teño que dicir que nunca estiven en Melgaço, pero se é tal e como a describides, se algún día me achego alá, seguro que non me perdo.


De novo, parabéns!

Autor: name Data: 2010-04-19 10:44:00
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